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O QUE É O PORTO?

O Porto são muitos Portos. Fragmentos, camadas, conexões, tempos múltiplos, vistos e experimentados por cada portuense, por cada visitante, de forma particular. 
Um Porto por cada pedra, um Porto por cada empatia ou discórdia, um Porto por cada pessoa, um Porto por cada momento, e todos estes Portos mutiplicados pelo número das suas interacções e incidências até ao infinito. E, apesar desta imensidão, reivindica-se que a cidade tem uma personalidade e um rosto próprios.

A resposta imediata que pode ser dada é que cada território contém um conjunto de traços físicos, históricos, culturais, excepcionais ou transversais – marcos, tradições, forças, fisicalidades, afectos, simbolismos, caricaturas – que o recortam. Podemos exercitar sumariamente a aplicação deste tipo de resposta ao Porto: no Porto é que se trabalha; o Porto é boémio; é típico; é cosmopolita; é barroco, moderno, pós-moderno, provinciano, visionário, largo, estreito, das ilhas, das avenidas, do São João, da Exponor, turístico, entrincheirado, rude, insinuante, cumpridor, caótico, desenhado. Torre dos Clérigos, Casa da Música, Aliados, Ribeira, Foz, Serralves, Fontaínhas, Amial, Areosa. Hospital de São João. Mercado Abastecedor. Selo, placa, mapa, carta. Pedra, ferro, madeira. Tasco e Michelin. Tripas e pratas, ambas entranhadas. E também as tapas. Cidade empreendedora, cidade precária, cidade anónima, cidade formal. Cidade dominante, cidade esquecida, cidade subserviente, cidade subversiva. Cada uma delas tantas vezes coincidente na mesma pedra, na mesma pessoa, no mesmo episódio, no mesmo armário, em armários diferentes, um da Picaria, outro do Clube, outro herdado de uma casa na aldeia, outro da tia e outro ainda comprado no Ikea.

O Porto são muitos e contraditórios Portos. Cidade-cebola, cidade-labirinto, cidade constelação. Cidade que não se reconhece numa só camada, força, elemento, narrativa, representação. Respondemos então primeiro com uma frase – “Somos o que queremos ser” – que apresenta um sujeito plural, uma constelação indomável de herdeiros/agentes transformadores de um ser maior e partilhado que é a cidade.

Mansa e Invicta? Sim!

Campo 24 de Agosto, ruína de prédio embargado, palco de tragédia em 2006. Fotografia: Heitor Alvelos

COMO SE REPRESENTA O PORTO?

É para nós claro que representar este Porto – como qualquer território –  não é um mero acto técnico, estético, estruturante ou afectivo. Por trás destes actos existe obrigatoriamente uma escolha política. O que se representa, como se representa, quem se revê e o que revê nos termos da representação, que Porto se escolhe privilegiar e projectar, são decisões que contaminam a cidade presente e sonhada. Não podemos separar representação e visão de cidade. A primeira implica a segunda. Cada proponente de uma representação é cidadão político que propõe, conscientemente ou não, uma visão. Cidade Produto? Património? Prosperidade? Afecto? Raiz? Cidade subscritora ou Cidade na vanguarda? Que tipo de pertença e de futuro propomos? A que prazo? Com que custos e benefícios? PPP tomou as suas opções, e elas traduzem então uma visão.

Numa perspectiva clássica e dominante do Design, qualquer tentativa de simbolizar uma cidade, organização, produto ou indivíduo consiste na criação de um sistema original de representação gráfica, composto de elementos – signos, símbolos, tipos de letra e cores – organizados e articulados segundo uma gramática fechada e dominável.

Contudo, o revestimento superficial de realidades através da acção unificadora do Design – uma espécie de Midas que desvenda a nomeação gráfica das coisas e depois age como polícia visual do sistema adoptado – tem conduzido ao desenvolvimento de identidades visuais que cada vez mais se assemelham entre si. Tende-se para o abafamento das identidades reais, subjugadas à condição de serem uma outra – mesma – coisa que as torna legíveis e consumíveis. Esta uniformização de identidades visuais e a consequente perda de diversidade cultural é operada às mãos das estéticas dominantes, potenciadas à escala internacional pela disseminação mediática instantânea de reportórios. Trata-se de uma contradição face à própria ideia de identidade e também de uma perda de património real que não é resgatado: elementos visuais, gráficos, culturais, documentais, simbólicos, que definem, de facto, o contexto ao qual pertencem.

Um tal resgate exige o mergulho profundo no universo no qual se opera, e um grau assinalável de imunidade face aos olhares dominantes, e humildade face aos espinhos e as energias que definem de facto os sujeitos simbolizados, para que transbordem e conquistem o seu espaço.

O mergulho implica que, à pergunta “que elementos dão nome e significado à cidade, que histórias, estórias e épocas podemos invocar?” se responda: todas. Qualquer escolha de partida, por exemplo monumental ou simbólica, submete a cidade a uma falsa unicidade, quando não a separa entre aqueles que se nela se incluem e excluem. E, uma vez mergulhados no todo, há que o deixar falar nos seus termos.

Então, à pergunta “que sistema permite conter a diversa e complexa sobreposição de coexistências que configuram a cidade tal como é, e lhe conferem profundidade cultural, histórica, simbólica?” respondemos: não queremos um que ouse abafar tal complexidade, até porque ela subsistirá sempre. Argumentamos, antes, que é possível e legítimo procurar um sistema que se coloque ao serviço da sua descoberta e partilha.

Necessitamos então de uma estratégia de inventário e de um trabalho sensível de estudo e evidenciação do seu conteúdo: dos ícones, dos objectos, das cores, das formas, das evidências em si, mas também dos registos de carácter, plasticidades que transpiram ligações culturais, territoriais, temporais, sociais, afectivas. Estes ingredientes mais subjectivos e subliminares são, propomos, definidores de facto do carácter da cidade – o carácter que se sente, que se cheira, que se afirma sem recorrer à sua falsa simplificação. Subjectividade tão ou mais decisiva do que uma forma narrativa explícita e assimilável.

O Porto tem uma personalidade própria. Mas poderemos defini-la? Tem um rosto. Mas poderemos desenhá-lo? Não certamente triturando os seus componentes num valor médio e constante. Talvez mais tacteando a textura rugosa e aleatórea que se vai formando nas suas diferenças. Parece-nos este caminho de maior risco mas também de maior alcance, não só em defesa do valor patrimonial, mas também como estratégia de afirmação no mundo globalizado em que vivemos. Mais do que Porto-Marca e Porto-Produto no sentido da economia de mercado, propõe-se Porto Cidade Partilhada, no sentido do desenvolvimento e percepção de uma outra riqueza, a do seu espaço comum, histórico, criativo, cultural, cidadão. E assim afirmar a diferença da cidade a longo termo, fazendo emergir a sua identidade das suas forças mais perenes e menos dos seus interesses mais circunstanciais e cintilantes.

Não existem respostas simples para o conjunto de questões que aqui se levantam. Mas certamente que a cidade pode fazer-se ver através das diferentes representações que escreveram e continuam a escrevem o seu nome. Nelas podemos sentir que a cidade chama por si, fala-se a si. Hoje menos tímida, mais visível e liberta de mordaças, mais assumida tal como foi, como é, especulando ainda como pode vir a ser.

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SÍNTESE

Como síntese da visão que se esboçou, a plataforma estabilizou um conjunto de decisões estruturais que orientam o seu modo de operar:

›› Elege-se a palavra PORTO como elemento simbólico essencial, forma congregadora de qualquer dimensão de Porto.

›› Propomos aproximar a complexidade do universo PORTO a partir do inventário das grafias da palavra que a cidade já inscreveu, inscreve, inscreverá em si própria.

›› Este inventário só é possível apelando a todos os cidadãos e usufruidores da cidade para que partilhem os Portos que vêem, escrevem, experimentam.

›› Este inventário imenso tem valor patrimonial em si, e reverte para o pensamento e a percepção da identidade da cidade actual e futura, na medida em que for sujeito a acções de re-criação prospectivas do carácter subjectivo e complexo da Cidade.

Visa-se implementar um processo continuo de participação e indagação que amplia as metas usualmente atribuídas a uma representação gráfica simbólica. Transborda-se do tradicional desenho de identidade para uma outra dimensão prática, política e cidadã, que alarga possibilidades e actua como mecanismo de formação de um mapa revisto e actualizado das inscrições gráficas patrimoniais do Porto.

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